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O paradoxo da inclusão na América Latina: mais acesso, mas menos conhecimento

Apenas 3 em cada 10 latino-americanos alcançou um nível real de inclusão financeira. E quem já tem acesso a produtos, em sua maioria, não sabe como usá-los. O que acontece no espaço entre ter e entender?

DADO CHAVE

Na América Latina, convivemos com uma contradição que raramente nomeamos com clareza: construímos uma infraestrutura financeira impressionante — digital, acessível, crescente —, mas metade dos adultos da região ainda enfrenta barreiras reais de acesso. E entre quem já tem acesso, a maioria não sabe como usar o que tem para melhorar a própria vida.

Esse foi o ponto de partida do webinar «Impulsionando a Inclusão Financeira através do Jornalismo na América Latina», organizado pela LatAm Intersect como parte de nossa série Intersecção de Valor. Uma iniciativa coberta por veículos como Portal dos Jornalistas e Revista Salto. Para o espaço, reunimos três vozes: Olga Rendón, criadora do Salva Tu Bolsillo; Katyanny Ramírez, diretora na Finsus; e Javier Bastardo, colunista da Forbes e gerente de PR da Bitfinex para a América Latina.

Antes do webinar, ouvimos mais de 100 jornalistas de toda a América Latina. O resultado foi revelador: 45,5% considera os temas de inclusão financeira muito relevantes para sua audiência. Mas, ao mesmo tempo, 63,6% reconheceu que precisa de mais capacitação e recursos para cobrir esses temas com maior profundidade. Relevância alta, ferramentas insuficientes: essa tensão resume o estado do jornalismo financeiro na região hoje.

O dado que diz tudo

Segundo o Global Findex 2025, 70% dos adultos na América Latina tinham acesso a uma conta financeira em 2024; no entanto, acesso não equivale a uso efetivo: segundo a quinta edição do Índice de Inclusão Financeira da Credicorp (IIF 2025), apenas 30% alcançou o nível mais alto de inclusão financeira, 41% está em progresso e 29% permanece no nível baixo. Apenas 3 em cada 10 pessoas realmente aproveitam o sistema financeiro. Uma lacuna documentada por La República e Portafolio.

Em termos de conhecimento de produtos, apenas 40% dos latino-americanos conhece dez ou mais produtos financeiros, um avanço de 18 pontos percentuais desde 2021, mas que expõe uma lacuna que os números de acesso não capturam.

A região apresenta um mapa heterogêneo. O Cone Sul, liderado por Chile e Argentina, lidera em inclusão financeira. A América Central apresenta um panorama dividido: Costa Rica e Panamá na vanguarda, e o triângulo norte, Guatemala, Honduras e El Salvador, ainda atrasado.

Ter uma conta bancária ou uma carteira digital não equivale a ter saúde financeira. O paradoxo é que o acesso sem educação pode gerar novas formas de vulnerabilidade: superendividamento, fraude ou simplesmente dinheiro parado que não trabalha para ninguém.

As barreiras que o acesso não elimina

A jornalista Olga Rendón, ex-editora de El Mundo e El Colombiano, e criadora da plataforma de finanças pessoais Salva Tu Bolsillo, foi direta: a informalidade no trabalho, o medo do sistema tributário e a desconfiança em relação à cibersegurança continuam sendo barreiras críticas que impedem os cidadãos de usar os serviços financeiros para transformar sua qualidade de vida.

Um sistema financeiro que gera desconfiança não é um sistema acessível, por mais produtos que ofereça. E é aqui que a comunicação entra como variável estratégica, não decorativa.

O papel do jornalismo: mais do que divulgar, traduzir

Katyanny Ramírez, especialista em sustentabilidade e inclusão financeira, diretora na Finsus e fundadora da Co-Crear Consultoría, levantou algo que ressoou em toda a conversa: sem uma narrativa clara e acessível, o acesso tecnológico não se converte em bem-estar real.

Essa perspectiva coloca na mesa algo que as agências de comunicação e as equipes de relações públicas de entidades financeiras deveriam internalizar: o problema nem sempre é de produto, mas de mensagem.

DeFi e cripto: o novo capítulo da inclusão

Javier Bastardo, filósofo, colunista da Forbes e gerente de relações públicas da Bitfinex para a América Latina, ampliou o debate em direção às finanças descentralizadas. A América Latina é uma das regiões com maior crescimento na adoção de criptomoedas no mundo, e os dados da Chainalysis confirmam: entre julho de 2022 e junho de 2025, a região registrou quase 1,5 bilhão de dólares em volume de transações cripto.

No entanto, Bastardo foi enfático: o desconhecimento sobre as empresas do setor continua sendo um obstáculo enorme. Mais acesso tecnológico sem mais educação financeira reproduz, em outro formato, o mesmo problema de sempre.

A conclusão que importa para as empresas

Os três especialistas concordaram com a mesma tese de encerramento: o sucesso da inclusão financeira na América Latina não será medido pelo número de contas abertas, mas pela capacidade real das pessoas de tomar decisões financeiras informadas.

Para as empresas do setor, isso tem uma implicação direta: a comunicação não é um gasto de marketing, é um investimento em educação que gera retorno em confiança, adoção e permanência do cliente.

Transparência e simplicidade da mensagem não são virtudes editoriais. São as ferramentas mais poderosas para converter o acesso tecnológico em prosperidade sustentável. Como bem resume a America Retail: o grande desafio já não é abrir contas, mas ensinar a usá-las.

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FAQ

Quantos latino-americanos têm acesso a uma conta financeira?

Segundo o Global Findex 2025, 70% dos adultos na América Latina tinham acesso a uma conta financeira em 2024. No entanto, apenas 30% alcança um nível real de inclusão financeira segundo o IIF Credicorp 2025.

Por que o acesso a produtos financeiros não garante inclusão financeira real?

Apenas 40% dos latino-americanos conhece dez ou mais produtos financeiros. Ter uma conta não equivale a saber usá-la para melhorar o bem-estar financeiro.

Quais são as principais barreiras à inclusão financeira na LATAM?

As principais barreiras são a informalidade no trabalho, o medo do sistema tributário e a desconfiança em relação à cibersegurança, segundo a jornalista Olga Rendón.

Como DeFi e criptomoedas estão sendo usados para inclusão financeira na LATAM?

As finanças descentralizadas são usadas como alternativa ao sistema financeiro tradicional, especialmente em contextos de alta inflação. A Chainalysis reporta quase 1,5 bilhão de dólares em volume de transações cripto na região entre 2022 e 2025.

Qual é o papel do jornalismo na educação financeira na América Latina?

O jornalismo cumpre uma função de tradução de conceitos complexos. Uma pesquisa da LatAm Intersect com mais de 100 jornalistas revelou que 63,6% precisa de mais capacitação para cobrir esses temas com profundidade.

Como uma empresa do setor financeiro pode melhorar sua comunicação na LATAM?

O problema nem sempre é de produto, mas de mensagem. Marcas que comunicam com simplicidade e transparência geram mais confiança e adoção. Uma estratégia eficaz deve considerar diferenças culturais, ecossistemas locais de mídia e o nível de educação financeira de cada público.

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